A pintura é uma das formas mais antigas pelas quais a humanidade conhece a si mesma.
Muito antes de se tornar disciplina, profissão ou objeto cultural, ela era um gesto instintivo — um modo de dar forma ao que ainda não podia ser dito. Acredito que esse impulso ainda vive em nós. Quando pintamos, o inconsciente revela silenciosamente aquilo que a linguagem, sozinha, não consegue conter. Cada pintura é menos uma invenção do que uma liberação: o instante em que algo invisível finalmente pode existir.
Nada começa com certeza. Não há uma imagem predeterminada a perseguir, nenhuma narrativa a ilustrar e nenhum destino já conhecido. Cada pintura se desdobra por meio de uma presença atenta. Gesto, pressão, cor e matéria revelam gradualmente uma lógica visual que jamais poderia ter sido planejada de antemão.
Trabalho principalmente com tinta acrílica e acolho sua capacidade de transparência, densidade e transformação por meio de camadas sucessivas. Flores, folhas, olhos e formas orgânicas aparecem repetidamente, não como símbolos a decifrar, mas como presenças vivas que emergem do diálogo entre percepção, memória e matéria.
Os próprios materiais participam ativamente dessa conversa. Pincéis, pigmentos, superfícies texturizadas e fragmentos recolhidos da vida cotidiana carregam, cada um, sua inteligência silenciosa. Folhas trazidas para casa pelas mãos das crianças, vestígios do tempo e pequenos remanescentes do mundo natural ocasionalmente passam a integrar o trabalho — não como decoração, mas porque já pertencem ao ritmo pelo qual a pintura se revela.
Paralelamente à prática de ateliê, um corpo independente de pesquisa artística surgiu gradualmente de anos de observação sobre como as imagens passam a existir. Essa pesquisa investiga gesto, pressão e a relação entre matéria e percepção, buscando não fórmulas, mas as condições que permitem o surgimento de uma expressão visual autêntica.
Para mim, pintar não é ilustrar ideias. É uma forma de escutar antes de compreender, de ver antes de nomear. Cada tela concluída permanece aberta, convidando quem a observa a desacelerar, habitar a incerteza e descobrir sentidos que continuam a se revelar com o tempo.

